A história de haitianos traficados ao Brasil
Publicado em outubro de 2013



Vencedor dos prêmios Expocom Regional e Nacional 2014 e Prêmio MPT de Jornalismo
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Em 2013, decidi buscar uma boa história para contar como trabalho de conclusão de curso da Universidade de Brasília. Queria um tema de abrangência social, para devolver à sociedade um pouco do que foi investido em mim durante cinco anos em uma instituição pública. Notei, à época, o silêncio em torno da situação de haitianos traficados ao Brasil.

Quando a história tomava linhas de um jornal, os haitianos se transformavam em meros números; eram pouco ouvidos. Mas quem são esses haitianos? Por que se aglomeram na pequena Brasiléia (AC)? Procurei um parlamentar respeitado do Acre para entender a situação. Em abril do ano passado, ele me disse: "se quiser contar essa história, corra. O governo federal vai fazer uma força-tarefa na cidade, e não vai sobrar um haitiano por ali". Ele estava enganado. O fluxo ilegal se intensificou em Brasiléia após a força-tarefa.

Com uma câmera, um microfone e um tripé emprestados decidi partir para o norte do país em busca desses migrantes. Conheci a dor e o sonho que trouxeram na bagagem. Um sonho não mais americano ou europeu. Um sonho brasileiro.

Capítulo 1: Chegada ao Brasil

Em dezembro de 2010, a população de Brasiléia, no Acre, começou a notar a chegada de imigrantes na cidade. Eram haitianos que se deslocavam à procura de melhores condições de vida, emprego e ensino superior.

Para sair do Haiti, eles contam com o apoio de coiotes – atravessadores que fazem o tráfico de migrantes. Os coiotes pedem em média U$ 3 mil pela viagem, que pode chegar a três meses de duração. O trajeto é repleto de riscos. Eles passam pela República Dominicana, Panamá, Equador e Peru. Muitos dizem que no percurso são roubados e humilhados pelos traficantes e pela polícia. Eles se sujeitam à ilegalidade por não conseguirem o visto brasileiro de forma regular na embaixada do Brasil em Porto Príncipe.

Apesar de toda a pressão do governo acreano para acabar com a rota ilegal, pouco mudou. Os haitianos não param de chegar e a situação em Brasiléia é cada vez mais grave. Nos últimos 3 anos, mais de 21 mil haitianos entraram no país de forma ilegal, segundo dados do Ministério da Justiça. E o número cresce ano a ano. Em 2013, o fluxo foi cinco vezes maior em relação a 2011.

A primeira cidade brasileira onde pisam é Assis Brasil, no Acre, que faz tríplice fronteira com o município peruano Iñapari e o boliviano Bolpebra. Dali, seguem imediatamente a Brasiléia (AC), onde encontram um mínimo de apoio do governo acreano. Em Brasiléia, os imigrantes fazem a solicitação de refúgio na Polícia Federal e aguardam a documentação em um alojamento sob condições insalubres.

O abrigo funciona dentro de um antigo clube com capacidade para 250 pessoas. Em abril de 2013, cerca de 1,3 mil imigrantes dormiam no local, o que motivou o governador do Acre a decretar situação de emergência social na cidade.

Confira abaixo imagem 360° do alojamento.

Até breve, Haiti!

O dia 12 de janeiro de 2010 jamais sairá da memória da população haitiana. Nessa data, um terremoto de 7,3 graus de magnitude na escala Richter atingiu o país. Mais de 200 mil pessoas morreram na tragédia e 1,5 milhão ficaram desabrigadas.

Um ano após o terremoto, a capital do país, Porto Príncipe, continuava sob os destroços. Até então, apenas 5% dos escombros tinham sido retirados da cidade, de acordo com a ONG Oxfam.

Percurso

Para chegar até o Brasil, os haitianos fazem uma longa viagem que pode durar até dois meses. Ao deixar o Haiti, eles passam pela República Dominicana, Panamá, Equador e Peru. A primeira cidade brasileira onde eles chegam é Assis Brasil, no Acre. Dali, percorrem mais 110 km até Brasiléia, onde encontram abrigo, comida e documentação.

Sonho

Quando o assunto é sonho, duas palavras enchem a boca dos haitianos: emprego e estudo. Eles migram com a ilusão de encontrar ensino superior gratuito e acessível no Brasil.

Segundo reportagem especial do jornal Le Monde, no Haiti há 200 estabelecimentos que se autointitulam "universidades", mas apenas 25% desses centros têm autorização de funcionamento pelo Estado. Deles, 80% ficam na capital Porto Príncipe. A cada dez instituições, oito são privadas.

Alojamento

As condições do alojamento em Brasiléia são extremamente precárias. É ali onde haitianos - e imigrantes de outras nacionalidades - se abrigam enquanto aguardam a legalização no país. Em abril de 2013, cerca de 1,3 mil pessoas viviam no alojamento, cuja capacidade era para 250 pessoas. A situação caótica vivida em Brasiléia fez o governador do Acre, Tião Viana (PT), decretar estado de emergência social na cidade.

A ONG Conectas Direitos Humanos afirmou que o abrigo apresenta “condições desumanas”, após visita realizada em agosto de 2013. “É insalubre, desumano até. Os haitianos passam a noite empilhados uns sobre os outros, sob um calor escaldante, acomodados em pedaços de espuma que algum dia foram pequenos colchonetes, no meio de sacolas, sapatos e outros pertences pessoais. A área onde estão as latrinas está alagada por uma água fétida, não se vê sabão para lavar as mãos e quase todos com os que conversamos se queixam de dor abdominal e diarreia. Muitos passam meses nessa condição”, ressaltou o coordenador de comunicação da Conectas, João Paulo Charleaux, em reportagem feita pela organização.

"Haitianos comiam gato"

A alimentação dos haitianos recém-chegados a Brasiléia depende de doações, seja da população ou do governo estadual. Devido ao aumento no fluxo de entrada de imigrantes, as doações muitas vezes não foram suficientes para alimentar a todos.

Entre setembro de 2012 e fevereiro de 2013, não havia comida disponível no alojamento. Os haitianos comiam o que encontravam pelas ruas, conta Damião Borges, responsável pelo abrigo e funcionário da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre.

O governo estadual voltou a fornecer comida aos imigrantes apenas no dia 12 de fevereiro de 2013, após contratar uma empresa que vende marmitas ao custo unitário de R$ 3,98.

Memórias de Damião

Damião Borges é funcionário da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre. Ele acompanha a chegada dos haitianos desde a intensificação do fluxo, em 2010. A vinda dos imigrantes não respeita horário, nem dias úteis. Eles simplesmente chegam, a qualquer hora do dia ou da noite. Todos os dias, lá está Damião os auxiliando, seja como funcionário do estado do Acre ou como voluntário nos fins de semana.

Damião tornou-se o grande irmão dos haitianos. A história desses imigrantes também se tornou, aos poucos, a história dele.

Empresários vão à Brasiléia

Em abril de 2013, o governo do Acre inaugurou um posto do Serviço Nacional de Emprego (SINE) em Brasiléia. As ações de apoio do Ministério do Trabalho se iniciaram em maio, com o objetivo de acelerar a emissão de carteiras de trabalho.

Esse cadastramento no sistema de empregos não é de interesse apenas dos haitianos. Empresários também estão de olho na mão-de-obra que chega aos montes pelas fronteiras; e vão até o Acre selecionar imigrantes para indústrias e canteiros de obra.

"Eles não sabem fazer nada, mas tudo sabem fazer". Assim o documentarista Jean Rouche descreveu um grupo de jovens nigerianos, em 1958, que migravam para a Costa do Marfim em busca de emprego. Essa foi a mesma sensação descrita por alguns empresários em Brasiléia. Certos haitianos garantem ser pedreiros, eletricistas ou profissionais de qualquer outra área para serem contratados o mais rápido possível.

Trabalho informal

Os haitianos chegam no Brasil em condições precárias. Sem dinheiro nos bolsos e com o anseio de encontrar um emprego, eles tentam sair de Brasiléia. Alguns contam com o apoio da família, que os envia dinheiro para o transporte. Outros, sem tanta sorte, são obrigados a fazer bicos ou aguardar a contratação por alguma empresa que lhes forneça passagem aérea.

Dentro do alojamento, pequenas trocas comerciais acontecem. Uma senhora tenta vender fatias de melancia, um outro rapaz corta cabelos. E assim os haitianos tentam repor, pouco a pouco, o dinheiro perdido pelo caminho.

Ações do governo do Acre

O alojamento em Brasiléia onde moram os haitianos é o galpão de um antigo clube da cidade. As paredes são vazadas e não criam uma isolação com o exterior. O local foi providenciado pelo governo do Acre para que os imigrantes não fiquem nas ruas.

As condições insalubres do abrigo são alvo de críticas dos haitianos. Mesmo após a força-tarefa realizada pelo governo federal, em abril de 2013, a estrutura do ambiente continua precária. Nos banheiros, algumas descargas não funcionam e as duchas estão entupidas.

Adeus, Brasiléia!

A primeira grande vitória dos haitianos, no Brasil, é sair do Acre. Alguns se vão com emprego garantido. Outros tentarão encontrar um trabalho a partir de amigos e parentes, que já estão no país há mais tempo.

O aeroporto de Rio Branco (AC) se enche de haitianos principalmente nas madrugadas, quando os voos são mais baratos. E foi em uma dessas noites que a reportagem encontrou Billy e Charles, preparados para embarcar para um futuro de incertezas.

Fotos

Capítulo 2: Adaptação

Após conseguir toda a documentação, os haitianos começam a migrar pelo território brasileiro. Alguns se deslocam para grandes cidades, na ilusão de encontrar abudância de emprego. Outros acabam seguindo para centros urbanos onde já existem colônias de haitianos.

Jeannise, 51, migrou para Brasília e se instalou no Varjão, região periférica da capital. Ali encontrou abrigo na casa de conterrâneos e a ajuda de uma religiosa.

"Não sei onde vou dormir"

Os haitianos chegam a Brasília (DF) exaustos da viagem e do período em que estiveram no alojamento de Brasiléia (AC). Sem ter onde ficar, eles procuram abrigo na casa de seus conterrâneos, onde se alimentam e aguardam uma oportunidade de emprego.

A maioria desses imigrantes que se deslocam para o Planalto Central procuram Rosita Milesi, religiosa e diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH). Ela tenta angariar doações de roupas, eletrodomésticos e cobertores para os grupos recém-chegados.

À espera da família

Muitos haitianos desejam se instalar no Brasil de forma permanente e tentam trazer os familiares que ficaram no Haiti. Jeannise chegou sozinha e agora espera a vinda de seus quatro filhos. Por falta de dinheiro, ela só pode pagar os gastos de transporte de um deles. Assim que o primeiro vier, este trabalhará para pagar a viagem do próximo irmão.

Jeannise afirma que todos os filhos viajarão ao Brasil por intermédio de coiotes. Segundo ela, o processo de retirada de documentos pela embaixada brasileira em Porto Príncipe é lenta.

Sonho brasileiro

Muitos haitianos vêm ao Brasil na ilusão de encontrar abundância de emprego e facilidade de acesso ao ensino superior gratuito. Os grandes eventos esportivos que serão sediados no país, como a Copa do Mundo, também atraem a vinda desses imigrantes, segundo a diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), Rosita Milesi.

Emprego

A maior dificuldade no momento de encontrar um emprego é a barreira do idioma. Os haitianos, em geral, chegam ao Brasil sem o domínio da língua portuguesa.

Os imigrantes que se deslocam para Brasília (DF) contam com o apoio de Rosita Milesi para conseguir uma vaga de emprego. Milesi também os adverte sobre seus direitos trabalhistas.

Trabalho escravo

Alguns empresários de má-fé aproveitam da situação de vulnerabilidade dos haitianos e os submetem a condições de trabalho análogas à escravidão. Em junho de 2013, 21 haitianos foram encontrados nessa situação em Cuiabá (MT).

Segundo reportagem do G1, "eles dormiam em camas improvisadas na área da frente da casa. Algumas delas eram feitas em cima de engradados de bebidas. Outros alojados dormiam em colchões no chão. Do lado de dentro, foi registrada superlotação e quartos minúsculos. Além disso, os trabalhadores também estavam sem água".

No Rio Grande do Sul, o Ministério Público do Trabalho teve de intervir no conflito entre imigrantes e empregadores. Os haitianos reclamavam de descontos abusivos na folha de pagamento.

Força-tarefa

No dia 12 de abril de 2013, uma força-tarefa comandada pelo Ministério da Justiça (MJ) se instalou em Brasiléia (AC) para acompanhar e promover a regularização de haitianos no país.

Além do MJ, a ação contou com servidores dos ministérios do Trabalho, do Desenvolvimento Social e da Saúde. Segundo informações do governo federal, em quatro dias de força-tarefa foram cadastrados 1.315 haitianos. Desse total, 1.048 receberam carteira de trabalho.

Novos desafios

De acordo com o secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, todos os haitianos que estão em Brasiléia (AC) entram no país por meio da solicitação do protocolo de refúgio. A situação da maioria dos haitianos, porém, não se enquadra à definição legal de refúgio estabelecida pela ONU.

A diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), Rosita Milesi, afirma que o Brasil precisa de uma nova lei de imigrações e desenvolver a política migratória. Além disso, a especialista aponta a necessidade de criar estruturas de acolhimento aos estrangeiros no país.

Fotos

Equipe

Este projeto é resultado de um trabalho de conclusão de curso da Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília (UnB).

Murilo Salviano
Reportagem/Idealização


Graduado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB) e na Université de Rennes I (DUT), na França. Já viajou à Amazônia a convite do Centro de Comunicação Social do Exército, em 2011. A experiência rendeu uma reportagem para o jornal Campus. Entre os estágios na área televisiva, trabalhou na TV Globo (em Brasília e em Londres), TV Brasil e TV Brasília/Redetv. Também estagiou na Radio France Internationale (RFI), em Paris.

Atualmente, trabalha na GloboNews, em Brasília (DF).

Thiago Vilela
Planejamento gráfico/Webmaster


Graduado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB). Especialista em criação de sites, fotografia e edição de vídeos, estudou Belas Artes na Universidade do Porto (UP), em Portugal, e possui certificação Adobe nos programas Adobe Photoshop, Illustrator e InDesign. Estagiou na Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e foi assessor da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Já desenvolveu sites para prefeituras, entidades nacionais internacionais e empresas de todo porte.

Atualmente, trabalha na Câmara dos Deputados,em Brasília (DF).

Agradecimentos

Fernando Oliveira Paulino (orientação), Nolwenn Guyon (idealização e tradução francês), Alexandre Bastos (tratamento fotográfico), Cassiana Umetsu (arte), Pedro Resende (apoio local Acre), Vanessa Soares (apoio local Acre), Thibault Danjou (timelapses), Gurvan Kristanadjaja (colaboração).

"Até Breve, Haiti" na imprensa:

EBC: Webdocumentário destaca história de haitianos traficados ao Brasil
Exibição do webdoc no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo
Correio Braziliense: Aluno da Faculdade de Comunicação da UnB conta a história de haitianos traficados ao Brasil em webdocumentário
Secom UnB: artigo de Murilo Salviano
Jornal GGN: Webdocumentário destaca história de haitianos traficados ao Brasil
Citação no "Episódio Haiti", do fotógrafo haitiano Pierre Michel Jean
R7: Aluno da UnB conta história de haitianos traficados ao Brasil em webdocumentário
Garotos digitais: Websérie retrata vida de haitianos que vieram para o Brasil ilegalmente
Maio Negro, na Unesc, encerra com a exibição do documentário “Até Breve Haiti”
Citação no artigo "Brasil, mostra a sua cara: aproximações ao cenário brasileiro de documentários interativos", de André Paz e Julia Salles

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